terça-feira, 02 de março de 2021

Agronegócio

Transformar os sistemas agrícolas e alimentares: um desafio que todos devem encarar juntos

11 Jan 21 - 20h33 Thayse Truffa
Transformar os sistemas agrícolas e alimentares: um desafio que todos devem encarar juntos

Faltam apenas mais dez anos para alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Sendo a agricultura e a alimentação os atores principais desses 17 objetivos, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reconheceu que uma abordagem holística é chave. Todos os desafios mundiais estão interconectados – bem como as soluções. Se ocorre a promoção da agricultura e da alimentação sustentáveis mundo afora, é possível reduzir a pobreza e a fome, ajudar a combater as mudanças climáticas e a preservar os recursos naturais para as futuras gerações. Ao transformar sistemas agrícolas e alimentares, é possível transformar o futuro.

Entretanto, essa não é uma tarefa fácil. Práticas agrícolas não-sustentáveis contribuíram para os problemas do meio ambiente como a degradação do solo, desmatamento e emissão de gases de efeito estufa. Mas o setor agrícola pode ser também parte da solução. Na atual emergência climática, mudar os sistemas agrícolas e alimentares para serem mais conscientes sobre o clima, mais sustentáveis, inovadores, nutritivos e resilientes, está no centro das mudanças necessárias.

Para conquistar isso, deve-se abranger a inovação enquanto utiliza-se também as práticas tradicionais e os métodos agrícolas testados ao longo do tempo pelos indígenas. Devemos fortalecer os meios de subsistência e assegurar que comunidades rurais – geralmente as pessoas mais vulneráveis das regiões mais suscetíveis – sejam resilientes frente às mudanças climáticas e seus efeitos.

Embora alguns progressos tenham ocorrido na conquista dessas metas, o mundo precisa fazer mais e rápido. Com o prazo de 10 anos em mente, a FAO está acelerando o ritmo do progresso, encontrando e implementando soluções inovadoras, incentivando as melhores práticas globais e trabalhando em conjunto com parceiros para alcançar sistemas alimentares sustentáveis para todas as pessoas.

Aqui estão quatro maneiras pela qual a FAO e seus parceiros estão acelerando as ações e fornecendo soluções:

1. Incentivar investimentos para combater as mudanças climáticas e reforçar os sistemas alimentares

Investimentos na agricultura podem, de fato, enfrentar inúmeros problemas, o que é compreensível. Investimentos adequados podem reduzir a fome e a pobreza, enquanto também protegem o meio ambiente e combatem as mudanças climáticas. A FAO tem trabalhado com parceiros como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês) e o Fundo Verde para o Clima (GCF na sigla em inglês) para investir em ações estratégicas que possam ser ampliadas e replicadas para maximizar o impacto.

No papel de intermediário, a FAO ajuda países a acessarem e mobilizarem recursos do GEF e os apoia na implementação de projetos. Nos últimos 12 anos, a parceria FAO-GEF entregou mais de 180 projetos em mais de 120 países, beneficiando aproximadamente 5 milhões de pessoas. Desde 2006, a pasta FAO-GEF é avaliada em mais de US$ 900 milhões.

Um projeto FAO-GEF envolvendo essa abordagem holística vai ajudar a transformar o setor pecuarista do Equador, difundindo  tecnologias para o gerenciamento de soluções climáticas inteligentes na pecuária e fornecendo assistência técnica para fazendeiros sobre problemas relacionados ao clima e ao meio-ambiente, como a degradação do solo e emissão de gases de efeito estufa.

Graças também aos US$ 161 milhões doados por outro grande parceiro, o GCF, a FAO está implementando novos projetos ao redor do mundo para aumentar a resiliência das comunidades aos impactos das mudanças climáticas e reduzir a pobreza, enquanto preserva o meio ambiente e a biodiversidade. Esses projetos priorizam as comunidades rurais – os verdadeiros guardiões das paisagens locais, para a restauração sustentável a longo prazo da terra, do solo e das florestas.

Uma iniciativa específica da FAO beneficiada pelos fundos do GCF busca restaurar e preservar em torno de 25.000 hectares de mata nativa em cinco regiões do Chile. Quando for concluído, o efeito da emissão de gases estufa vai ser reduzido em 1.1 milhão de toneladas de CO2, perto de 7.000 hectares de mata serão plantadas e, aproximadamente, 17.000 hectares de floresta serão preservadas e administradas de maneira sustentável. Mais de 57.000 pessoas, incluindo membros das comunidades indígenas, farão parte do projeto, ajudando a restaurar a área. Projetos como esses da FAO visam trabalhar com povos indígenas, atrelando seus conhecimentos às práticas tradicionais com soluções inovadoras no combate das mudanças climáticas e na construção de sistemas alimentares sustentáveis

2. Reduzir a pobreza e aumentar a segurança alimentar e nutricional para comunidades e ambientes mais saudáveis

Desde sua fundação, há aproximadamente 75 anos, a FAO utiliza sua competência, experiência e neutralidade para facilitar, dar assistência e fazer parcerias com países, visando conquistar a segurança alimentar global, eliminar a pobreza e promover sistemas agrícolas e alimentares sustentáveis.

Uma parceria recente que capta a essência disso é o programa FISH4ACP de cinco anos com a União Europeia (EU), o Grupo de Estados da África, Caribe e Pacífico (ACP) no valor de 40 milhões de euros. Seu objetivo é impulsionar o desenvolvimento da pesca e da aquicultura sustentáveis em 10 países em todas as áreas da indústria.

Ao atingir um equilíbrio entre produção e proteção, o programa foca em todos os aspectos da sustentabilidade: econômico, ambiental e social. Contribuirá no sentido de uma distribuição justa de renda, promoverá condições dignas de trabalho, encorajará a adequada administração da indústria pesqueira e defenderá práticas sustentáveis na aquicultura.

 3. Combater a raiz das crises alimentares e construir resiliência nas comunidades

As áreas rurais mais pobres carregam com frequência o peso das crises e suas fontes de alimento e de sustento são as mais afetadas. Ao ajudar as comunidades a atenuar riscos, a manejar seus recursos naturais, definir meios de sustento mais fortes e aumentar a produção agrícola total, a FAO não apenas melhora a segurança nutricional alimentar, mas também contribui para a redução de conflitos e manutenção da paz.

Quando ocorrem crises em países ou regiões, com frequência a situação se torna incapaz de garantir agricultura em larga escala ou iniciativas rurais que possam assistir à população. A ajuda humanitária é frequentemente vista como a única opção.

"Nosso trabalho mostra que isso não é verdade. Sabemos que as intervenções de desenvolvimento centradas no fortalecimento dos meios de subsistência a longo prazo podem ocorrer em grande escala - mesmo em locais operacionais instáveis”, disse o diretor geral da FAO, QU Dongyu.

De fato, uma parceria recente com a Holanda colocou essa perspectiva em ação. Para enfrentar a crise alimentar pela raiz, a Holanda contribuiu com US$ 28 milhões na construção de um sistema alimentar robusto na Somália, no Sudão e Sudão do Sul, tudo parte de uma grande iniciativa para aumentar o grau de resiliência nos países afetados por crises de longa duração.

4. Encorajar práticas agrícolas sustentáveis que protejam a biodiversidade e impulsionem soluções baseadas na natureza

Proteger a biodiversidade não é apenas essencial para nosso meio ambiente, mas também um pré-requisito exigido para sistemas alimentares sustentáveis e nutritivos. Precisamos recorrer a uma grande variedade de culturas e garantir sua sobrevivência genética para uma dieta mais diversificada, saudável e balanceada e sistemas agrícolas mais resistentes. Olhar para a natureza buscando soluções é outra prioridade da FAO.

Graças à recente parceria FAO-União Europeia, um novo programa de 9 milhões de euros vai estimular práticas agrícolas baseadas na natureza e em práticas agrícolas ambientalmente amigáveis em países da África, do Caribe e do Pacífico (ACP). Com foco no combate à perda de biodiversidade, combate à degradação da terra, reforço da segurança alimentar e aumento da resiliência às mudanças climáticas, ele promoverá a agricultura sustentável com base em soluções baseadas na natureza e práticas agrícolas tradicionais. O objetivo é diminuir o uso não-sustentável de pesticidas e fertilizantes perigosos e promover métodos naturais de controle de pragas. Até agora, o programa apoiou a eliminação de toneladas de pesticidas obsoletos e reforçou os procedimentos de avaliação dos riscos dos pesticidas em vários países da ACP. Além disso, o programa apoia abordagens baseadas em ecossistemas, incluindo polinizadores, promovendo a agrofloresta e conservando a diversidade das plantações locais.

"Esse novo programa vai ajudar a superar as barreiras socioeconômicas e políticas que impedem os países e fazendeiros de adotarem práticas de agricultura baseadas no ecossistema e abordagens para a biodiversidade e gestão química", disse Qu Dongyu, diretor geral da FAO.

Os desafios atuais envolvendo alimentação global e sistemas agrícolas são mais complexos e interrelacionados. Soluções que atenuem o impacto das mudanças climáticas são, com frequência, aquelas que fazem o cultivo mais eficiente, melhorando os meios de sustento e estimulando a segurança alimentar. Uma visão holística de como tornar os sistemas agrícolas e alimentares mais sustentáveis é aquela que também protege o meio ambiente e os recursos naturais para as gerações futuras.

Parcerias como essas são cada vez mais importantes para nosso mundo interconectado. Junto ao setor privado, governos e outras parcerias essenciais, a FAO trabalha para disseminar uma abordagem holística para a agricultura e produção de alimentos e garantir sustentabilidade dentro desses setores. Ao transformar nossos sistemas agrícolas e alimentares num contexto mais amplo de desafios mundiais, podemos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.

Na COP25, a FAO está renovando seu compromisso para criar um mundo sem fome e sem pobreza e convocando todo tipo de parceria ao redor do mundo, a juntar-se à organização.

Via: ONU Brasil - Foto: Divulgação


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